Eram sete e meia da manhã de um sábado. Eu atravessava sozinho a deserta João Pessoa em direção à UFRGS, sem me importar com o frio matinal, mas desejoso de ter ao menos tomado um café da manhã.
Na noite anterior eu estivera em uma festa junina no campus Agronomia, e antes disso estive no campus Saúde assistindo à minha última aula de Psicologia do Trabalho III. Desta vez, deixava o abrigo da Casa do Estudante em busca de um ônibus da mesma UFRGS, pois tencionava tomar parte em uma atividade de extensão que envolvia uma saída de campo.
Logo que avistei o facilmente reconhecível veículo oficial da universidade, tratei de ir conhecendo os que me acompanhariam. Um a um foram chegando, da biologia, veterinária, geografia, história, odontologia, ciências sociais e mesmo de fora da UFRGS. Muitos rostos e nomes novos, menos o do meu velho amigo Bruno, que estava como sempre atrasado.
O que reunia aquelas pessoas de tão diferentes origens ali num sábado pela manhã era uma atividade ligada à agroecologia – construção de um viveiro – a ser realizada num assentamento do MST na cidade de São Jerônimo. A proposta era uma iniciativa do Grupo de Apoio à Reforma Agrária (GARRA) e pode muito bem parecer vaga ou distante para a maioria das pessoas, mas para mim soou da seguinte forma: uma oportunidade gratuita de ir para o campo mexer com a terra, fazer trabalho braçal e fugir do concreto e do asfalto. Estou dentro!
A perspectiva de ter de emendar uma festa agitada a uma atividade árdua logo no dia seguinte pela manhã não me assustou. Depois da minha experiência com ENEPs, congressos e outras atividades similares, não me preocupo mais com a taxa de sono para esse tipo de coisa.
Chegando lá, tivemos a oportunidade de conversar com um dos líderes do assentamento e escutar um pouco das questões que estão implicadas na vida e trabalho de um assentado do MST. Conhecemos também a casa da família do agricultor Lagarto e seu respectivo lote, onde construiríamos o viveiro. Ironicamente, nosso vizinho era uma área de monocultura de araucárias da ARACRUZ.
O trabalho de construção do viveiro centralizou-se nas atividades de cavar profundos buracos, carregar toras e capinar o terreno. Além de ser uma ótima forma de gastar energias em alguma atividade diferente, foi uma oportunidade de todos sentirem-se ignorantes, fracos e preguiçosos. Mesmo o mais idoso dos agricultores (e que devia ter lá seus sessenta e tantos anos) fazia facilmente o trabalho que dez de nós universitários teríamos dificuldade para fazer, mesmo revezando. Um misto de falta de técnica e comparável fragilidade nos colocava em apuros durante o manuseio das ferramentas – teve até gente apanhando para martelar um prego! Um verdadeiro aprendizado e uma lição de respeito por um trabalho tão desvalorizado.
Ao meio dia a esposa do seu Lagarto fez a todos um excelente almoço vegetariano, com salada, massa, suco natural de maracujá e um aipim com maionese espetacular. À tarde o grupo de universitários acabou distanciando-se do trabalho e partiu em uma caminhada pela zona de floresta, juntamente com as mulheres e crianças do lote, enquanto os agricultores de verdade terminavam o viveiro. Eu já estava sentindo os efeitos da atividade prolongada, então aproveitei o passeio entre as árvores para viajar e saborear um pouco esse contato tão raro com um entorno vivo e essencial. Comer bergamota direto do pé, andar sobre majestosos troncos caídos, observar humildemente as folhas e as flores que crescem por crescer, alheias a toda vontade e toda opinião que tanto nos significam todos os dias.
Ao regressarmos, o viveiro já estava quase pronto, erigido pelos dedicados Lagarto e seus colegas agricultores do assentamento. Exausto e lutando para me manter acordado, ainda fizemos um momento de apresentação e declaração de qual era a implicação de cada um com o projeto ali. Eu estava junto com o grupo dos que foram por curiosidade, embora na verdade uma série de questões pessoais, sociais e existenciais haviam conspirado para que eu ali estivesse. Era evidente que ninguém ali era um curioso qualquer, mas pessoas engajadas e conscientes. E estar junto com elas ali, naquele espaço de concentração de corpos, mentes e energia, foi um privilégio e uma excelente forma de começar minhas férias.


O trabalho manual é um meio terápico eficaz e extremamente barato. Além de nos fazer perceber que nada sabemos diante da força e saber popular, desmistificando a arrogância acadêmica. Como moro em cidade do interior, sempre convivi com estes trabalhos manuais, o que para você foi uma descoberta, para mim já é velho conhecido. Belíssimo projeto, estão todos de parabéns.
Abraços
Gilberd Soares