Há alguns anos atrás, quando me mudei para a casa do meu pai, peguei as numerosas caixas de plástico, papelão e outros recipientes de grande porte, todos recheados de pecinhas de LEGO cuidadosamente selecionadas por cor, e doei tudo para os filhos da faxineira.
Há anos já eu não mais esparramava tudo aquilo pelo chão e perdia tardes a fio a montar elaboradas estruturas, cenários, exércitos e aventuras materializadas em peças de plástico combináveis. Na minha infância, a maior parte da minha torrente imaginativa foi canalizada através destes brinquedos, palco de minhas primeiras viagens, diminutas representações de heroísmo, grandeza e glória. Adquiri ao longo dos anos muitas e muitas caixas de LEGO, de diferentes temáticas, grandes e pequenos, até acumular uma respeitável coleção.
Os anos foram passando, os interesses foram mudando, coisas como o videogame e o computador passaram a disputar minhas longas horas de lazer infantil. Foi assim que o LEGO deixou de se apresentar no meu cotidiano e, um dia, teve que ser definitivamente separado de mim.
Neste domingo um outro ramo do meu entretenimento passado também seguiu o mesmo rumo. É bem verdade que corresponde mais ao período da adolescência, mas não creio que seja tão válido fazer essa diferenciação. O fato é que durante os meus últimos anos no colégio eu mantive um hábito bastante sólido de jogar Magic: The Gathering, o esporte dos nerds. Assim como com o LEGO, muito prazer extraí do engenhoso jogo de cartas, muitos decks insólitos eu construí e muitas vitórias emocionantes acumulei. Eu até que era bom naquele joguinho.
Com o tempo, também acumulei muitas cartinhas – o suficiente para encher umas quantas caixas de sapato. Enquanto eu ainda estava no colégio, essas caixas de sapato eram constantemente manipuladas, ficavam acessíveis no meu quarto. Com o avançar dos semestres na UFRGS, as caixas foram migrando para as partes altas de meus armários e as cartinhas nunca mais viram a luz do dia.
Chegou a hora de minhas cartas de Magic verem a luz do dia mais uma vez. No entanto, será quando forem recolhidas para a reciclagem. Estou me desfazendo de todas elas; antigas e esquecidas edições cujas mecânicas não se usam mais, cujas aparências causam estranhamento ao jogador atual, vítimas de uma obsolescência programada de uma indústria do entretenimento. Elas ainda representam boas lembranças para mim, mas penso que preciso me desapegar de velhos objetos sem uso. Não deverá ser diferente com as cartas de Magic.
Ensacadas e removidas, agora não sobraram outros representantes de passatempos meus para futuros descartes. Meu tempo livre é gasto na rua, explorando e vivenciando, sentindo na pele o que antes eu imaginava. Se viajo sem me mover atualmente, é senão através de meus livros, estes uma paixão aparentemente mais perene, menos consumista.
O que fica desta reflexão é a impressão de que o desenvolvimento é sem dúvida implacável, a identificação com certas práticas não consegue ser imune à passagem do tempo, especialmente quando nos referimos aos anos da mocidade. O que me consterna ao menos em parte é o que me motivou a me desfazer das caixas de Magic: estava ficando sem espaço para guardar os papéis da faculdade e do estágio…

nem pra vender!
Cara, vou vender para quem? Não conheço alguém que jogue Magic hoje em dia, e é tudo carta velha! Achei que não valeria o trabalho. Não me prestei nem a doar, vai tudo para a reciclagem.
Mesmo destino que os muitos e muitos textos sobre psicanálise e psicofísica que agora abarrotam o teu armário.
Pelo menos com LEGO dava para fazer algo construtivo.
Barbaridade! Faz isso com as cartinhas não, guri… Tadenhas!!! Vende. Apesar de vc achar que elas são antigas e tudo o mais, pode ser que entre elas vc tenha algumas raridades – não custa tentar!
Se quiser me dizer quais têm por aí, me disponho a comprar.
*Ainda há pessoas que jogam Magic! XD*