Faz frio no centro de Porto Alegre. É fim de outono, os delgados raios de sol se intimidam, esquivam-se de banhar os grosseiros paralelepípedos das ruas do paralelo 30º. Cada um dos transeuntes está só, mas não escapa de ser observado pelas solenes fachadas de outros séculos, que apenas fingem dormitar em silêncio em meio ao movimento diário.
A aspereza do ar frio empresta à cena uma tonalidade acinzentada, uma espécie de dignidade irônica compartilhada pelos mais impensáveis pedestres e seus cachecóis. Parecem ter consciência dessa involuntariamente adquirida dignidade, pois desfilam silenciosos, ainda que em multidão, por entre os postes de ferro trabalhado e as vitrines inquietas. A estas só é possível fantasiar de dignas, pois a transparência do vidro e a imobilidade escancarada dos personagens expostos esvazia o arranjo de toda a austeridade possível.
A descentralidade do centro é inquietante, pois um número incontável de pequenas lojinhas e estabelecimentos faz com que um montante ainda maior de gentes esteja a andar disperso, cada um com um destino à parte. Hoje, particularmente, parece que estão todos juntos a ir a parte alguma.
