E agora, para onde vamos? Em frente, é claro! E de cabeça erguida.
Abaixo segue uma carta aberta
escrita ontem e enviada aos meus colegas de curso, inspirada pelos pensamentos que nutri durante a minha recente estada na cidade do Rio de Janeiro para o Congresso Nacional dos Estudantes.
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Estimados companheiros,
Agora que eu já descansei um pouco mais e estou menos seqüelado, posso finalmente expressar a mais importante das mensagens que eu senti ser necessário transmitir a todos vocês durante o meu ‘retiro político’ na UFRJ.
A notícia que tenho a vos dar é que todos nós que aqui fazemos algum tipo de movimento estudantil, seja na psicologia, seja na área de saúde ou além, de que eu tenha conhecimento, estamos na vanguarda. Nós estamos no caminho certo, quer tenhamos consciência disso ou não.
Mas não pensem que eu pronuncio estas palavras por comparação. É evidente que depois de ter presenciado o horror social e político que era a movimentação de estudantes (mas não era Movimento Estudantil!) naquele Congresso Nacional dos Estudantes eu me dei conta de que existem coisas muito piores do que a forma como tocamos adiante nosso humilde diretório, ou como trabalhamos nossas pautas do SUS, saúde mental, assistência social, assistência jurídica ou outras muitas. Mas não é a simples comparação que nos faz louváveis! Estamos fazendo algo que faz sentido mesmo pensado intrinsecamente, seguimos princípios norteadores que eu não tenho medo de chamar de nobres, éticos e coerentes.
O CNE uniu centenas sob a bandeira do ME classista, anti-governista e combativo. Pois bem, meus amigos, vocês já devem saber que o que fazemos cotidianamente não é nem um, nem outro. E eu afirmo que devemos nos orgulhar disso. Seja na mobilização pela reforma curricular, sejam nas discussões sobre o Reuni, seja na nossa autogestão, no Ver-SUS, nos nossos coletivos interdisciplinares, no PSIU! ou muitas outras ações por aí afora, o que temos feito nos últimos anos e que eu tenho acompanhado são ações transformadoras e construtivas. Não nos atemos a dicotomias falsas, ou ficamos procurando encontrar bandeiras, bravatas e palavras de ordem atrás das quais nos esconder. Insistimos na criação no novo, em benefício de todos. Somos progressistas, ao invés de simplesmente polarizar.
Isso não é meramente uma virtude adicional e opcional. Nós somos coerentes com o verdadeiro espírito do Movimento Estudantil nos dias de hoje! É importante que nós estudantes possamos compreender que lugar ocupamos dentro da sociedade, e que lugar o ME ocupa dentro dos movimentos sociais. Os movimentos sociais são fundamentais em uma democracia, para que os cidadãos possam se organizar e reivindicar quaisquer demandas que tenham, lutar pelos seus interesses e necessidades, especialmente em um país do tamanho do nosso em que a mera democracia por meio do voto parece ser tão insuficiente para assegurar um serviço à toda a sociedade, ao invés de um segmento mínimo e privilegiado da mesma.
Nesse contexto, o Movimento Estudantil é qualitativamente distinto, pois é composto em sua maioria por jovens, e jovens que estudam. Estudantes estes que têm acesso ao saber, à crítica, à pensamentos atuais e contextualizados. São esses estudantes, intelectuais, gente capaz de compreender com profundidade as forças que estão em jogo e os horizontes éticos a serem perseguidos, que têm o dever de tomar a frente dos movimentos de massa, até mesmo dos movimentos históricos. Nós temos a capacidade de compreender a conjuntura de um mundo globalizado e pós-moderno, de modo a ir além dos meros ciclos de demanda e assistência que repetidamente marcam os movimentos sociais de base.
Não é nossa missão agirmos sozinhos e carregarmos em nossas costas a construção de um Brasil melhor. Pois eu não tenho dúvida de que os 1800 participantes do CNE estavam lá tentando construir o Brasil melhor que viam na cabeça deles, ainda que tivesse que ser através da revolução socialista imediata. Mas essa é uma crise de direção, mais do que uma resposta a uma crise econômica! Não podemos fundamentar um Movimento Estudantil em um saudosismo da ditadura ou do Collor, dos grandes inimigos que simplificavam as ações e tornavam os movimentos sociais simples de se posicionar e fáceis de mobilizar as gentes. De nada adianta colocarmos o Lula, o Bush, o Obama, o Imperialismo, o Capitalismo como ‘O Grande Inimigo’ e ficarmos fazendo passeatas aleatórias, queimando bandeiras e gritando slogans.
É importante que a sociedade se posicione em relação a todas essas coisas, inclusive sendo ostensivamente contra, quando necessário. Mas o ME não é qualquer movimento social. Ele é capaz de ir além disso, agir mais profundamente no âmago dos problemas que assolam o nosso mundo atual. E por ser capaz disso, ele tem o dever de assim o fazer. A sociedade investe em nós (e nesse “nós” eu incluo os estudantes de ensinos públicos e privados, pois todos esses recebem investimentos da sociedade) porque acredita que temos um papel a cumprir nessa mesma sociedade, que não é um papel aleatório e não é um papel recortado, de restringir-nos a exigir mais verbas para a educação e o resto do Brasil que se dane.
Nesse sentido, posso afirmar que o ME que eu conheço que é feito aqui dentro da Psicologia, dentro do DAP, ou em todo o núcleo da saúde, inclusive a nível de Rio Grande do Sul, está de parabéns. É verdade que ainda não mudamos o mundo, ou sequer derrubamos algum presidente (ou governadora!), mas não devemos ter medo do micro. Não defendo que nos esqueçamos do macro, e mesmo das passeatas, manifestações ou outros meios de se posicionar diante de questões do grande coletivo, mas que possamos acreditar e muito nas nossas ações focadas. E quero enfatizar a palavra ações, pois são estas, muito mais do que as manifestações, que realmente transformam a forma como a nossa sociedade é. Não basta que apenas reivindiquemos, pois somos parte constituinte da sociedade. Além de nos posicionar em relação a ela, temos que agir de modo a co-construirmos esse mesmo sistema de relações, e fazer isso com a consciência de que sociedade queremos. E, muito importante: não é interessante nem mesmo para nós que excluamos outros segmentos da sociedade, sejam eles quais forem, até mesmo os ‘burgueses capitalistas’ tão insistentemente acusados pelos estudantes e partidos marxistas.
Já estamos no caminho certo. Eu apenas fiz o meu papel de tornar claro o quê, no meu entendimento, faz com que esse seja o caminho certo. Agora basta que acreditemos cada vez mais no que fazemos, não abandonemos esses princípios e propaguemos essas idéias. Pois eu posso afirmar com tranqüilidade que voltei do Rio de Janeiro acreditando cinco vezes mais nesse movimento estudantil que temos aqui, até mesmo na mais modestamente heróica insistência pela presença de Representantes Discentes nas reuniões de departamento.
Sem mais,
Marcelo Figueiredo Duarte

