(Texto escrito para a publicação no jornal PSIU!, XVII Edição)
Eu já cansei de entrar em discussões com pessoas mais velhas sobre questões polêmicas relacionadas à legislação e administração de Porto Alegre, assim como do Rio Grande do Sul e mesmo do Brasil. O que me incomoda particularmente são algumas lógicas de remendo confortável que protegem o interesse dos cidadãos mais ricos, enquanto mantêm o problema absolutamente não resolvido. Um bom exemplo disso, embora de forma alguma seja o único, é o fechamento do Parque Farroupilha, mais conhecido como a ‘Redenção’.
Não é preciso refletir muito para concluir que o cercamento do nosso estimado parque não vai ser a solução para todos os nossos problemas. Sim, o parque à noite é um espaço para todo o tipo de atividades ilegais, esconderijo para criminosos, residência para moradores de rua. Sim, nas primeiras horas da manhã facilmente serão vistos os resquícios dessa movimentação noturna, certamente os mendigos ainda estarão por ali dormindo, fazendo suas necessidades ou transitando, perturbando a satisfação das boas famílias porto-alegrenses. Mas se tu tiver um mínimo de senso crítico, perceberás que toda essa gente terá que ir para outro lugar, diante da (duvidosa) impossibilidade de freqüentar a Redenção cercada. E eles irão para outros bairros, outras ruas ou então vão ficar ali do lado, mas não vão evaporar da existência. Logo, um vereador da Câmara Municipal de Porto Alegre estaria assumindo uma medida protecionista para determinadas estratificações da nossa população, em detrimento de outras. Nem preciso dizer que o problema retornaria sob outra forma para todo mundo daqui a 10 anos.
Mas enfim, não é sobre a Redenção que eu queria falar. Esse é só um exemplo. Na busca de medidas alternativas que se proponham a resolver algum problema na sua origem, uma solução real, conversa vai, conversa vem, eu acabo ouvindo: “tem que melhorar a educação! É isso que o nosso país precisa, é isso que vai fazer ele melhorar um dia, se acontecer”. Quando o problema aparentemente está localizado no comportamento do indivíduo, na sua personalidade ou na sua atitude de maneira geral, o Estado parece só ter um meio efetivo de agir nesse ponto: a educação. Através da educação nós moldamos o comportamento dos cidadãos, podemos construir um povo “melhor”, que por sua vez construirá um país melhor. Ou ao menos a idéia é essa. E, em certa medida, até faz sentido.
Agora, vejamos como anda a nossa educação. A minha irmã estudou durante muito tempo em colégios particulares e hoje em dia cursa o terceiro ano do segundo grau em um colégio público, então eu tenho semanalmente a oportunidade de receber relatórios sobre como anda a educação brasileira na sua extremidade, lá onde a coisa se desgruda da burocracia e chega às pessoas de verdade. O que ela me conta sobre seus colegas são coisas do tipo “eu morro em bairro, mas tenho espírito de vila” – proferido por uma colega dela, cujos interesses incluem entrar para a Polícia Civil para roubar os depósitos de materiais confiscados (drogas, armas…) e repassar para alguma gangue com que ela esteja associada. Outras colegas estão prestes a receber o diploma de segundo grau, porém talvez tenham dificuldade de lê-lo, pois se formam semi-analfabetas. Não vou me estender muito nas exemplificações, pois não conheço a realidade diretamente e poderia estar distorcendo alguma coisa. Mas creio que não seja necessária muita exemplificação para ilustrar o meu ponto.
O que eu quero dizer com tudo isso é que a educação que temos, bem ou mal, é compatível com esse tipo de mentalidade e muitas outras que vocês, caros leitores, podem imaginar por conta própria. Na verdade, o que eu quero chamar a atenção não é nem para o fracasso da instituição, como no caso do semi-analfabetismo, mas sim para a completa alienação que é resultante da nossa educação. Não existe qualquer viés social para a educação no Brasil. Essencialmente, o currículo é utilitarista e subordinado a uma lógica mercadológica, na qual se aprende um monte de baboseiras irrelevantes para quase todo mundo para que seja possível, no caso de uns poucos privilegiados, fazer um curso superior e conseguir um “bom” emprego, ou passar em uma prova para funcionário público, enfim.
O que importa é que aprender matemática, biologia, química ou outras matérias, por mais bem ensinadas que sejam, não vão oferecer nenhuma capacidade de crítica para o aluno. Não vão possibilitar que o aluno se situe socialmente, historicamente, economicamente. E nós sabemos que não são as aulas de história e geografia que vão cumprir esse papel, pois seus currículos estão voltados para um ensino “objetivo” desses conteúdos, distante da realidade de cada um, dissociado de suas próprias vidas diárias. A escola não é capaz de proporcionar ao jovem uma perspectiva contextualizada de sua própria vida, suas possibilidades e limites, os fatores que o constituem e as vias que ele tem para chegar a um ou outro destino futuro. Indo na escola aprende-se muito pouco ou quase nada sobre a desigualdade social, sobre o nosso sistema de governo ou mesmo sobre a educação que está sendo recebida. Que os defensores desse modelo digam o que quiserem, eu afirmo categoricamente que a nossa educação é absolutamente alienante e quase completamente estéril. Não posso dizer que aprendi muita coisa que “preste” nos meus 11 anos estudando em um colégio considerado de elite.
E é por isso que me incomoda ouvir que a solução para o Brasil é investir em educação. Educação não é a solução para tudo, pois já temos bastante educação. Mas é uma educação grotescamente ineficiente, praticamente posta fora. E a falácia da educação talvez seja uma das falácias mais resistentes à crítica que temos no nosso país, pois dificilmente a educação existente é questionada. A submissão aos professores, aos modelos e ao currículo é a norma sustentada pelas famílias esclarecidas. Precisamos simplesmente de mais educação? Ou, de que educação precisamos, então? E depois querem incluir a Psicologia no currículo, porque aí sim vai ficar uma beleza. Mesmo na melhor acepção dessa idéia, é a solução errada para o problema certo. E não me façam escrever outro texto sobre isso…

A educação é mercadológica sim, e isso está longe de mudar. Todavia, disciplinas como a História e Geografia devem ter o papel de reflexão, por mais menosprezadas que sejam. Talvez por aí seja a continuidade de um processo lento, mas que iniciou-se na implantação das escolas e que talvez paulatinamente evolua, passando-se da implantação ao questionamento da educação.
Eu poderia escrever muito mais, mas acho melhor parar por aqui. Mas que isso dá uma ótima discussão num bar, regado de cerveja, dá! Hahaha
Não há compromisso e nem boa vontade por parte do governo para buscar e implementar políticas públicas .Há um governo populista com intresses privados!!!