Se joga na água CAPIVARA!
Onde eu estava? Ah sim, o ENEP.
O ENEP tinha capivaras espalhadas pelo campus. Especialmente à noite. Forneciam um toque ora insólito, ora bucólico aos que desejassem vagar pelas cercanias sob as estrelas, pois era nessa hora que os roedores gigantes mais apareciam. Parece que não é apenas a sociedade civilizada que prefere evitar a convivência próxima com universitários sujos e estranhos (também conhecidos como estudantes de psicologia).
Mas vagar nas trevas por Campo Grande é algo que não se fez muito. Havia as festas, ora bolas. As três primeiras em uma chácara especialmente reservada para o encontro, em que cada uma tinha um tema. Na primeira noite, festa junina ao som de muito forró. Não é exatamente minha combinação favorita, então posso dizer que fiquei um tanto mais à parte nesta primeira ocasião. Seguiu-se a esta a festa mais tradicional dos ENEPs: o transenep! Posso imaginar a gênese de tão famigerada folia:
Pessoas bêbadas, em um ENEP do passado remoto: – Vamos todo mundo se vestir de mulher!!!
- Yeah, uhuuuuu! Mas primeiro me passa mais um pouco desse trago aí…
Mas há quem suponha que pode ter sido alguma idéia para quebrar com a discriminação e os preconceitos de gênero. Seja como for, as memórias sempre a esvairem-se das origens já se perderam no tempo do movimento estudantil. Hoje em dia a festa é notória por fazer todos os homens (menos o Chico, que é machão demais para isso, HEHE) se vestirem de peruas oferecidas e todas as mulheres se vestirem de ricardões cafajestes da espécie caminhoneirus taradus. Entre os círculos mais indagadores, comenta-se que aí parece haver uma espécie de revelação do imaginário popular que um gênero tem em relação ao outro, ou pelo menos como gostariam que fosse…
Na terceira noite foi o dia da festa havaiana, também conhecida como a-festa-em-que-liberaram-cachaça-pro-povo. Com efeito, para a surpresa geral, a festa contaria com uma tal cachaça pantaneira para livre consumo dos presentes. E veja bem: não era como aquelas festas de bebida liberada com as quais estamos habituados, nas quais é preciso enfrentar uma fila cretina para tomar um gole de cerveja quente de marca diabo. Era uma cachaça com mel e canela que descia suave (em termos de pinga, é claro) e era servida com abundância. A primeira rodada chegou a ser oferecida em uma bandeja!! Só não bebeu quem realmente não quis. E, meu amigo, o povo quis. Essa festa entrou para a história como a mais pirada dentre as festas. Até mesmo os veteranos de baladas loucas e reuniões frívolas da juventude moderna tiveram de reconhecer a escala de piração que a tal festa havaiana produziu. Não havia quem estivesse são. Foi lindo. E o pior é que a ressaca na manhã seguinte foi magicamente muito pequena. Vida longa à cachaça pantaneira!
Na quarta noite, o sarau programado teve de ser cancelado. A festa terminou sendo no alojamento, propiciando um clima mais intimista, um ritmo menos acelerado e até mais contemplativo, embalado ao som de violão e outros instrumentos que a galera dispunha. Amizade, romance, surrealidade. E bebida, é claro.
No último dia mais de três quartos dos enepianos já haviam iniciado sua jornada de retorno. Os guerreiros que ficaram foram guiados por alguns malucos campo-grandenses, que nos levaram até um bar chamado 21. Como Campo Grande não possui muita opção, parece que o negócio é maximizar o número de públicos-alvos por unidade de espaço, de modo que a casa oferecia várias mesinhas, mesas de sinuca, pista de dança e três bandas pelo preço de 5 reais. Com isso, vi uma mistura de tipos e tribos bastante interessante, ainda mais para alguém acostumado com a extremamente segmentada noite porto-alegrense.
O ENEP é um interessante espaço em que é possível entrar em contato com as conexões da psicologia que transcendem a própria psicologia como estamos acostumados a vê-la. Não é por desleixo que os momentos mais negligenciados de qualquer ENEP são as mostras científicas. Essas coisas cada um já vê em sua universidade, são propostas muito mais formais. Algumas pessoas simplesmente não entendem que o ENEP não é um espaço de formalização. Este ano viu-se que até a plenária estava formalizada demais (ainda bem que notaram isso, não queria ter outro surto!). No ENEP eu vi a Biodança, artes marciais, shiatsu, acupuntura, I Ching, astrologia, além da boa e velha conversa despretensiosa com gente de outros sotaques e outros horizontes.
Não vejo necessidade de me estender ainda mais. Quem viveu, sabe como foi. Quem não viveu, lamento muito. Certa vez o Sergio Antonio Carlos, um professor meu que dá uma cadeira particularmente angustiante, me disse o seguinte diante da minha preocupação por não conseguir sentir-me feliz naquelas aulas: “No dia em que tu ficar feliz, pega o teu diploma de Psicologia e rasga”. Felizmente para ele, ele não possui um diploma de psicologia, apesar de dar aula para psicólogos, então ele não corre o risco de ter de rasgar o dele. Felizmente para mim, estou pouco me lixando para o que os professores cretinos me dizem. O ENEP foi um momento de muita felicidade. Parecia que estávamos exatamente onde deveriamos estar, fazendo a coisa certa. Volta e meia eu necessitava parar e me assegurar de que aquilo tudo era realidade, de que realmente estava acontecendo. E estava mesmo.
ENEP, até o ano que vem!



