Foi numa noite quente de sábado em Porto Alegre, um prelúdio ao implacável calor que em breve nos envolverá este ano. Eu e o Lorenzo aguardávamos o último ônibus pro Centro na solitária parada da 24 de Outubro, nos perguntando para onde o rock nos levaria daquela vez.
Repentinamente surge um personagem. Munido de uma chave de automóvel nas mãos agitadas, falando atropeladamente, o sujeito nos aborda com uma confusa história. A saber: o elemento era um pouco alto, razoavelmente mais velho do que nós, loiro, branco, trajando camiseta, bermuda e boné, portador de um distinto sotaque que denunciava sua origem como próxima, mas não porto-alegrense. De fato, ele alegou ser de São Leopoldo e estar meio perdido em Porto Alegre, nunca tendo ido para os lados onde nos encontrávamos. A princípio aquela chave me assustou um pouco, mas logo percebi que não estava sendo usada como arma, mas como argumento.
Disse-nos ele que sua mulher estava em trabalho de parto e o procedimento foi frustrado em São Leopoldo pela falta de um obstetra disponível àquele horário. No pânico, ele se dirigiu à capital em sua caminhonete – pois não havia ambulância também – levando a mulher. A chave aqui parece que estava para dar credibilidade à existência do tal veículo. Nem todos os detalhes da história ficaram claros, pois ele narrava de forma muito apressada e desorganizada, parecendo despejar aleatoriamente fatos de uma noite árdua e longa. O que deu para entender é que ele precisava voltar a São Leopoldo, mas havia ficado completamente sem gasolina e ninguém por ali se dispunha a ajudá-lo. No calor do momento, ele nos oferece carona para onde quer que quiséssemos ir, pois não tinha outra forma de retribuir. Só portava a roupa do corpo.
Fiquei um pouco apreensivo com a situação, ainda que sensibilizado com o caso. Até então ele me soava suficientemente convincente para cogitar algum tipo de colaboração, mas por padrão eu nunca dou dinheiro algum a pedintes. Perguntei ao Lorenzo o que ele achava, que respondeu que preferia aguardar pelo ônibus, mas poderia ajudar de alguma forma. Ainda assim, só dispunha de 4 reais. Não adianta, respondeu logo o leopoldense. Precisaria de no mínimo 10 reais para chegar ao seu destino, mas que poderia nos largar onde fosse antes de tomar seu rumo. Eu disse com toda a franqueza que, por motivos de segurança, no carro dele eu não entraria. Por mais que o indivíduo soasse sincero, não deixou de me ocorrer que o risco de entrar no carro dele seria grande demais. Ali na rua, ele contra nós dois era uma situação administrável. Dentro de um carro a coisa muda de figura. Ele entendeu completamente que era um receio legítimo, dizendo que só estava mesmo tentando oferecer algo. Substituiu por uma oferta de restituição, que nos daria o número do CPF dele, endereço e o que quer que fosse.
Não é necessário, eu disse. Podemos ajudar, mas só disponho de 20 reais, não podendo entregar-te tal montante sem que vá faltar para mim. O personagem concordou inteiramente. O que se seguiu foi uma exasperada tentativa de parar um taxi que trocasse o dinheiro antes que o nosso ônibus chegasse. Finalmente um que parou nos conseguiu duas notas de dez, uma das quais deixei com o Marcelo (a essa altura ele já tinha se apresentado, dizendo também o sobrenome [que esqueci] e a idade [30 anos]). Finalmente, Marcelo agradeceu, entrou no taxi, explicou pro motorista em poucas palavras que estava em uma situação de emergência e conseguiu para si uma carona até o carro (alegadamente estacionado na Cristóvão). Foi-se embora pela noite, nos deixando ainda a esperar pelo velho ônibus.
*Na verdade ainda era fim de Outono, mas estava quente como se fosse Verão, então a licença poética se justifica.
…
Terei eu fornecido dinheiro a um embusteiro? É uma pergunta cabível. Confesso que embarquei no ônibus acreditando ter de fato prestado uma ajuda a alguém necessitado e em situação de emergência (mesmo não entendendo plenamente que situação era essa), além de ter sido uma maneira interessante de passar o tempo até a chegada do ônibus. Ainda assim, sabemos que hoje em dia o que não falta é gente querendo inventar alguma coisa pra te arrancar uma grana. Talvez eu tenha caído em uma história muito bem elaborada. Mas eu posso ver evidências contrárias a isso: algumas coisas são difíceis de explicar partindo da hipótese da enganação. 10 reais, quando eu declaradamente tinha mais? Sair da cena em um táxi? Enfim, não me preocuparei em discorrer sobre as interpretações, evidências e inconsistências. Isso fica a cargo do leitor. Dei-lhes a história.

Olá!!!!! Sobrinho querido rssssssssssssssssss
Que história heinnnnn!!!!! das boas sôooooo
bjao e te cuida.
Qualquer dia desses a tia vai te levar pra passear denovo rsssssssssssss