Feed on
Artigos
Comentários

O ENEP

O Tema deste ENEP foi Os Deslimites da Psicologia - Por uma Integração entre Prática e Cultura. Tomando isso como meta, o encontro foi um sucesso total.

Eu vou morar no ENEP!

Talvez por Campo Grande não ser uma cidade turística, talvez pela psicologia agregar um número muito grande de bundões, o número de participantes deste ENEP foi muito inferior ao do ano passado. Por outro lado, a integração e a convivência foram maiores na mesma proporção. Lamento pelos que perderam. Ficamos todos no mesmo alojamento, que era nada mais do que o ginásio poliesportivo conhecido como “moreninho”. Colonizamos um espaço em nome da psicologia porto-alegrense e ali nos instalamos. À nossa volta, dezenas de outras barraquinhas coloridas e colchões infláveis começavam a pipocar. Era o povo se instalando.

Depois de mais de um dia inteiro dentro do ônibus, o banho era um oásis no deserto. Frio, porém água não faltava e o clima estava de verão. Eu estou inteiramente convencido de que um ENEP sem banho precário não é ENEP. E olha que este ano tomar banho estava quase confortável demais…

Eu passei basicamente 7 dias seguidos dormindo precariamente, cerca de 4 horas por noite, talvez menos. E enquanto estava acordado, não parava de andar para lá e para cá, dando altas voltas pelo campus ou pela cidade, esquecendo que existe cansaço e que meus pés não são feitos de pedra. Tal foi a exigência para se aproveitar o máximo possível do encontro. Acabou sendo uma experiência não só dos deslimites da psicologia, mas dos deslimites de mim mesmo. Descobri na última festa que era possível não ser capaz de ficar em pé e falar direito mesmo estando sóbrio. A expressão ‘bêbado de sono’ ganhou um novo sentido para mim. Mas nada que dormir 30 minutos atirado em uma tábua no meio da festa e depois um pop-rock de excelente nível não bastassem para me fazer ferver mais uma vez.

ENEP Sounds

O ENEP teve muita música. Seja o maracatu, que abriu o evento no palco do teatro Glauce Rocha. Seja o show do Nando Reis, que fez a mesa de abertura esvaziar-se e todo mundo conhecer o Parque das Nações Indígenas, apinhado com milhares de campo-grandenses e enepianos. Sejam os funks, os eletrônicos, os forrós, até o animado pop-rock das festas oficiais na chácara do ENEP. Seja a banda Muchileiros, que embalou a noite do bar 21 no último dia, me ressuscitando dos mortos para vibrar no rock and roll. Sejam mesmo as musiquinhas viciantes que sempre fazem parte dos encontros de psicologia, como a já célebre Chico, cadê Você?, Perdi Meu Superego, Não Pára, Lacan eu Quero e muitas outras. Teve até jam multi-instrumentista espontâneo, com sons inspiradores. Teve até funk tocado por flauta doce, violão e bongô. O ENEP soa bem aos meus ouvidos.

O ENEP teve muita vida, muito corpo. Por mais que fossem relativamente poucos participantes, os que ali estavam, estavam de corpo e alma - intensamente. As pessoas cantavam, dançavam e brincavam espontaneamente. De repente alguém inventava um jogo e todo mundo participava. Fosse para criar tensão sexual, fosse apenas para se esticar, fazer poses bizarras, todo mundo se pilhava. A vergonha era desnecessária, não havia motivos para se sentir bobo. Eu mesmo, juntamente com o Chico e o Samuel, fomos facilitadores de uma oficina de artes marciais e expressão corporal, só para dar uma sacudida no esqueleto e ver algumas coisas diferentes. Teve também a oficina de Biodança, tão popular e tão fantástica que aconteceu duas vezes, com um enorme número de participantes. Uma experiência arrebatadora, a-reflexiva, extremamente experimental, sensória e vivencial. Participei nos dois dias. Posso dizer que me tocou, mexeu comigo. Abriu portas, dimensões pessoais minhas que estavam sendo negligenciadas. Não adianta nem explicar como funciona, só vivenciando. Teve gente que até saiu chorando…

Seguirei mais adiante, aguardem a terceira parte!

Almoçando no primeiro dia

É impressionante a diferença de rendimento treinando kung fu durante o semestre e durante as férias. Só o fato de eu não precisar estar me estressando com trinta trabalhos, compromissos e pendências já faz com que eu me sinta muito mais disposto e concentrado.

Melhoram o meu controle, o meu fôlego, a minha paciência, meu humor e até mesmo a minha resistência muscular. Se eu tive a oportunidade de dormir bastante no dia, dir-se-ia que sou outra pessoa! A verdade é que a carga de demandas acumuladas durante o semestre letivo é extremamente pesada. Além disso, uma vez que é impossível dar conta de tudo, estressa-se uma vez para executar as tarefas e uma segunda vez em função daquilo que não foi cumprido.

A verdade é que esse semestre eu quase me matei na faculdade junto com o estágio. Foi horrível. Mas agora posso aproveitar e passar três horas e meia no treino feliz da vida. E é o que eu farei.

Às duas e meia da manhã de sábado, dia 5 de Julho de 2008, eu estava escrevendo meus dois últimos trabalhos para a faculdade enquanto assistia Medo e Delírio e aproveitava para pirar junto com o filme. Meu ônibus partia em menos de 5 horas em direção a Campo Grande, Mato Grosso do Sul. O XXI Encontro Nacional dos Estudantes de Psicologia me aguardava.

Alguma demência e duas horas de sono depois, eu me encontrava com as malas feitas, saco de dormir, barraca, mochila contendo guloseimas, tudo o que eu pudesse precisar nesta viagem. Aguardava no saguão de meu prédio pela notificação do meu vizinho e companheiro de ENEPs Chico, que deveria me ceder uma carona até a rodoviária. Considerando que o ônibus saía às 7h e eram 6:40, julguei ser prudente telefonar. E eis que o acordei.

Felizmente ele já tinha tudo pronto. Após uma corridinha, chegamos à rodoviária de Porto Alegre, onde nossos amigos nos esperavam. Ao todo, éramos 7. Chico, eu, Carol e Samuel da UFRGS. Nathanael, Daniela e Lucas da UFCSPA. Se bem que o Lucas faz Direito na UFRGS, mas isso não importa. Muitos colegas abandonaram a empreitada antes dela se concretizar. Por esses eu lamento. Quanto aos ousados e persistentes, estávamos todos lá, com um destino em comum. Todos nós visávamos a aventura, a riqueza e a loucura. Embarcamos.

Muito chão havia pela frente, mas encaramos com coragem muitos livros e bolo de cenoura com cobertura de chocolate. No meio do caminho, em um destes paradouros achacantes que encontramos pelas estradas brasileiras, surge William. Rapaz simpático, fazendo o estilo grunge-hard rock, nos abordou interpelando se por acaso nos dirigíamos ao ENEP. E não é que íamos mesmo?

Ele estava em outro ônibus, mas nossa chegada na rodoviária de Campo Grande na manhã do dia 6 foi simultânea. Ali eu pisava em território familiar: havia percorrido essa mesma rota durante meu retorno da Bolívia, em Fevereiro deste ano. Mas desta vez meus afazeres ali não eram pernear sozinho o dia inteiro por uma cidade deserta, último destino de uma longa jornada. Eu tinha uma lógica e cinco dias para subvertê-la. Então pegamos um táxi com destino à Cidade Universitária de Campo Grande, pertencente à UFMS.

Daí em diante foi o XXI ENEP. Não foi meu primeiro ENEP, mas este me marcou de uma maneira especial. Considerando que o ENEP reúne as riquezas das pessoas, do ambiente, das programações e de si mesmo, cada pessoa só consegue vivenciar uma pequena parte de todas as possibilidades de um encontro desses. Cada um tem o seu ENEP.

O meu ENEP eu não gostaria de contar cronologicamente. Creio que desmereceria a surrealidade que aqueles momentos tiveram para mim se eu jogasse-os em uma linha de tempo sucessiva e passageira. O meu ENEP está acontecendo ainda agora.

Mas vamos por partes. Aguardem na seqüência o próximo capítulo…

XXI Encontro Nacional dos Estudantes de Psicologia

XXI Encontro Nacional dos Estudantes de Psicologia

Completei agora meu quinto semestre do curso de Psicologia da UFRGS. Daqui para diante, há menos pela frente do que para trás.

Neste semestre que passou, cursei 7 cadeiras de 4 créditos cada, mais o estágio de Psicopatologia e AT três turnos por semana. Paralelamente, estou fazendo ainda o curso de extensão de Integralidade na Atenção em Saúde, que começou em Maio e deve ir até Setembro, além do Kung Fu duas vezes por semana. Foi um sufoco.

Com o meu avanço no currículo da UFRGS, começo a entrar em contato com as matérias com as quais eu mais discordo (Psicanálise) e perder o contato com as que eu concordo mais (Experimental, Neurociências, Cognitiva). Restaram-me as aulas de Psicologia Social como coringas, mas estas me desapontaram.

Do departamento de Psicologia Social e Institucional, cursei Psicologia do Trabalho I, Psicologia Escolar e Problemas da Aprendizagem II, Ética Profissional e Psicologia das Relações Humanas e Dinâmica de Grupo II. Dessas, a única que eu achei razoavelmente decente foi Ética. E que o “razoavelmente” seja bem enfatizado.

Dinâmica II era uma versão mais medonha da anterior, mais infernizante e com um autor mais insípido. Passei a cadeira inteira xingando Pichon Riviére. Talvez eu pudesse ter sido um pouco mais flexível nesse ponto, quem sabe teria aproveitado mais. Mas minha posição política precedeu minha posição estudantil. Neste ponto, o B foi merecido.

Psicologia Escolar II, ao contrário da I, foi simplesmente chata. As aulas eram maçantes, os assuntos eram desinteressantes. Faltou, em minha opinião, um pouco de sagacidade da disciplina, algo que transcendesse o mero ensinamento de conteúdos estanques. Fiquei com um B nela também. A princípio eu não entendi esse B, pois poderia ter recebido um A. Mas de repente teve algum trabalho obscuro na cadeira que eu não fiz, sei lá.

Psicologia do Trabalho I foi lamentável. O assunto teria tudo para me ser interessante. Entretanto, a escolha do autor Robert Castel - um pós-modernista que nem artigo na Wikipedia tem - como principal e quase exclusivo referencial para a cadeira me desestimulou fortemente. Além disso, as aulas careceram de um fio condutor, uma problemática central à qual se trabalhasse coesamente. Como uma comorbidade, também as professoras variavam muito e a mistura da turma de psicologia com uma da engenharia civil não foi bem conduzida. No fim das contas, eu ignorei essa cadeira tanto quanto pude. Afinal de contas, alguma(s) teria(m) de servir de paria em um semestre tão cheio. O conceito C no final do semestre não surpreendeu. Ao menos serviu para ter uma noção de como anda o campo profissional para o psicólogo formado no estado. Que não é promissor, diga-se de passagem.

Ética foi legal unicamente porque eu escrevi um trabalho bom no final da cadeira, criticando o ensino das teorias psicológicas na universidade, especialmente a psicanálise. E também porque o trabalho que eu fiz sobre Psicologia e Acupuntura começou a me abrir a cabeça para várias coisas. Conceito: A.

Daí, havia três cadeiras de psicanálise. Terminaram sendo as mais interessantes do que eu esperava.

Psicopatologia I foi meio tosco, pois eu achei a professora muito teórica e muito perdida na matéria. Ela se desviava das minhas críticas e se contradizia às vezes. Felizmente ela é bem aberta e flexível, possibilitando que eu fizesse um trabalho consideravelmente despojado e ainda tirasse A.

Introdução à Prática do Acompanhamento Terapêutico foi legal porque acompanhava o meu estágio. Nesse ponto ela fazia sentido. E também a riqueza trazida pelas experiências dos colegas fazia com que ela não se perdesse em alguma baboseira pseudoteórica. Aproveitei também o trabalho final para fazer uma crítica firme à idealização da prática do AT, coisa que foi bem acolhida. Outro A.

Métodos e Técnicas de Exploração e Diagnóstico Psicológico I foi a melhor cadeira do semestre. O professor Norton merece aqui uma menção nominal por ser extremamente sedutor e retórico, capaz de prender a atenção da turma inteira em temas que poderiam perfeitamente ser maçantes. Além disso, ele é um dos professores mais abertos a críticas que eu já conheci, merecendo a difícil distinção de ser digno do meu respeito. Ainda que possua todas essas qualidades, é um lacaniano convicto, o que fez da experiência com a cadeira de MEDEP um desafio para mim. Entender e criticar a teoria, foi o que fiz, resultando no meu trabalho mais bem feito e aprofundado até hoje neste curso. Sua saída para meus apontamentos tenazes muitas vezes terminavam em “a Psicanálise não é para todo mundo”, o que me parece bastante verdadeiro e coerente, ainda que eticamente complicado. O esforço para realizar o trabalho final dessa cadeira foi tamanho que me rendeu um A e ainda sobrou para garantir o outro A em psicopatologia com uma pedrada só.

O fim do semestre quase me matou. Tive que deixar tudo pronto para poder viajar a Campo Grande para o ENEP. Mas foi possível me aplicar bastante onde eu achei que era merecido e negligenciar bastante o restante. Por outro lado, pude ver que se eu me dedicasse mais às cadeiras como um todo, poderia aprender muito. No próximo semestre eu quero ver se consigo me sobrecarregar um pouco menos. O estágio ainda não acabou, vai até o final do ano. Talvez eu fale sobre ele em outro momento. E assim vamos adiante.

Volta e meia surgem aquelas discussões que, diante da conclusão de que nossa civilização não é exatamente compatível com a felicidade coletiva, remetem aos selvagens índios como detentores de uma cultura simples e feliz.

Eu não duvido que uma tribo de índios isolada no meio do mato ou da savana compreenda uma comunidade estável cujos membros tenham uma taxa média de felicidade bastante elevada. Essa visão idealizada dos índios dá-se porque supomos que eles vivem em imobilidade social, desprovidos de conflitos. Não há bens para se ter, então não há a frustração de não tê-los. O grupo é demasiadamente pequeno para excluir qualquer um dos seus membros arbitrariamente. Presumidamente, em uma sociedade tão sem tecnologias, reduzida à cerâmica e à caça e coleta, os únicos conflitos possíveis são aqueles provenientes das vicissitudes psicológicas ou das moléstias fisiológicas.

Mas é aí que eu entro. Ainda que eu reconheça o valor da vida simples e planificada, há uma coisa na civilização da qual eu relutaria muito em abrir mão: os dentistas. Aquela indiarada é toda desdentada. Imagine ter que conviver com uma dor de dente irremediável e posteriormente perder o referido dente de tão podre! Não, não.

Dê-me meu mal-estar civilizado. Pelo menos com meus dentes eu posso comer tortas. E então eu sei que tudo ficará bem.

Coma torta você também e seja feliz

.

P.S.: Para procrastinar o meu trabalho de Psicopatologia, fui pesquisar se o que eu disse tem algum cabimento. Esta notícia diz que os índios não têm quase cáries porque a mastigação deles é auto-limpante. Mas eles esqueceram de mencionar a conseqüência disso, que este outro site mostra, na parte em que fala das populações com hábitos alimentares primitivos…

Há algumas semanas atrás eu fui até o centro de Porto Alegre. Lá, caminhei até a Riachuelo, entrei em um sebo e saí de lá com um exemplar usado de A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera.

Esse livro é um dos romances mais importantes do século XX. De cunho existencialista, centra-se no desenrolar das vidas de dois homens, duas mulheres e uma cadela a partir da invasão soviética à então Tchecoslováquia.

Agora que eu já terminei o livro, eu queria escrever algo sobre ele… Mas não sei direito o quê. Relembrando, ficou bem marcado para mim que a história possui um plano de fundo político. Existe em todos os personagens (menos na cadela) um atravessamento da ocupação soviética, uma exigência de posicionamento frente a essas questões, seja por ideologia, seja por pressão social. Uma sociedade oprimida pelo Estado se torna uma sociedade irreconhecível. Tomas, um dos personagens principais, publica uma carta a uma revista intelectual aludindo ao mito grego de Édipo para chamar os comunistas do país à responsabilidade por suas ações, especialmente aos que alegavam desconhecimento das conseqüências de seus atos.

Quando a carta de Tomas foi publicada, houve um clamor: chegamos a isso! Já ousam escrever publicamente que temos de furar nossos olhos!

Dois ou três meses mais tarde, os russos decidiram que a livre discussão era inadmissível no seu domínio, e mandaram, no espaço de uma noite, que seu Exército ocupasse o país de Tomas.

A perseguição aos cidadãos polariza-os entre o medo e a revolta. Alguns vêem-se obrigados a ceder ideologicamente ao regime de ocupação, o que cria uma vergonha, mas uma vergonha partilhada e cúmplice entre essas vítimas. Outros resolvem resistir à coerção exercida sobre si ou sobre os que lhes são próximos, e entre eles estabelece-se um sentimento de virtude, de que é preciso lutar e enfrentar as conseqüências, de desdém para com aqueles que tiveram que baixar a cabeça. Tomas não suportou os olhares e os sorrisos daqueles que o julgavam e o mediam, o que o levou a tomar um rumo sem volta em sua vida.

Por outro lado, a história tem uma forte tonalidade existencialista. Todos os eventos narrados são inteiramente cotidianos. Os nós centrais da trama são os relacionamentos amorosos que os 4 personagens travam entre si, com todos os seus dramas e paradoxos.

Me ocorre agora que a visão de existência expressa neste livro não deixa de ser um navegar através do tempo e do espaço através das relações de amor e de ideologia. Parece que são estes dois elementos que determinam o Es muss sein! (tem de ser!) dos personagens.

Despida de sua notável estética, a problemática existencialista da insustentável leveza, contrastada com o mais pesado dos fardos do Eterno Retorno nietzschiano, pode ser entendida a partir da questão de quanta parcialidade moral uma pessoa se propõe a sustentar. Parcialidade moral é o viés a partir do qual a sua vida e as questões relacionadas a ela são mais importantes e significativos pela simples razão de serem suas e não de uma outra pessoa qualquer.

O esmagador martelo filosófico do Eterno Retorno é a concepção de que sua vida será eternamente a mesma e infinitamente repetida através da eternidade, colocando o sujeito numa posição de implicação colossal com sua própria realidade. Em oposição a tal concepção encontra-se a leveza, a constatação de que o mundo não é dependente do sujeito. A vida é o resultado de meros acasos, não existe grande destino, não há relevância efetiva nas atitudes de um homem frente ao universo de outros acasos circunscritos no irrefreável tempo. Mesmo pensando no indivíduo, a leveza é a falta de significado, falta de importância, impossibilidade de uma escolha pesar mais do que outra diante da inexistência de uma alternativa “certa” objetivamente. Isso me lembra o que a psicanálise lacaniana entende por errância psicótica, desprovida de um saber centralizador…

De qualquer forma, a dicotomia entre o peso e a leveza permanece. A questão de qual é positivo e qual é negativo permanece sem solução. Segundo a psicanálise, enquanto neuróticos estamos todos do lado do peso, atuando o drama de nossa própria vida, sofrendo cada virar de esquina. Leves são os psicóticos que erram por aí, para eles tudo sendo possível, uma coisa não tendo mais peso que a outra, seja dirigir uma empresa, lutar em uma guerra ou assaltar bancos. Mas eu não levo muita fé nessas divisões estruturalistas da psicanálise. A psicologia da leveza me parece insustentável. Melhor parar por aqui; daqui a pouco já caio na tentação de fazer interpretassos psicanalíticos nas obras de ficção…

O título deste post é uma referência ao título de um disco do Chuck Berry, de 1959. Naquela época ele estava no topo.

Em 2008, quase 50 anos depois, Chuck veio a Porto Alegre. E ele estava no topo outra vez. Aos 81 anos o pai do rock and roll veio fazer um show histórico na capital gaúcha e eu desembolcei a quantia de 100 reais para ir vê-lo. Uma aposta e tanto para os meus padrões.

Mas valeu a pena. Havia a pista, que saía mais barato. Mas, sabe-se lá por quê, resolveram que esse show deveria ser em cadeiras e o espaço da pista ficou reservado a um espacinho longe e isolado. Aí não ia dar. Comprei a cadeira mais barata e fui.

Abertura de Fernando Noronha & Black Soul. Pô, o cara toca bem. Já tem 6 CDs e eu nunca tinha ouvido falar dele. Vai ver ele não tem o devido reconhecimento por ser um brasileiro que canta em inglês. Prova viva de que a mídia pode barrar a carreira de excelentes músicos se, por algum motivo, não se conseguir o apoio dela.

Não foi preciso esperar muito para que o grande Chuck Berry fizesse sua aparição no palco. O homem a quem John Lennon referiu como “se fosse o caso de chamar o rock and roll por outro nome, poderia ser Chuck Berry” surgiu por entre as cortinas tocando Roll Over Beethoven para a alegria da multidão. Instantaneamente, todos se levantaram das suas cadeiras e a vantagem dos que compraram as cadeiras mais na frente desapareceram. Daí para diante foi rock and roll em pé, como deve ser. Lamento pelos que ficaram na pista, isolados por uma grade lá atrás…

Não foi muito surpreendente notar que às músicas ao vivo não correspondiam exatamente às versões de estúdio que ficaram para a história. A maior parte delas tinha um ritmo um tanto mais lento e uma série de acordes ocasionalmente errados. Mas considerando que o cara é mais velho que o meu avô, não dava para querer nenhum virtuosismo. Além do mais, não é como se as músicas fossem irreconhecíveis. A maior parte delas foi apresentada conservando a empolgação antológica que, como amantes do rock, nos trazia ali.

O show era essencialmente histórico. A performance foi curta, apenas uma hora. Volta e meia o filho dele segurava as pontas dando um apoio na guitarra, ou o tecladista assumia um solo enquanto ele descansava um pouco, então não se pode dizer que a graça era a qualidade musical. Até porque as músicas daquela época eram bastante simples, sem maiores elaborações. Mas o gosto de estar diante do homem que divide com Elvis Presley a coroa de Rei do Rock valia o ingresso para o diversificado povo que atendeu ao evento. Com sua tradição rockeira, os porto-alegrenses compareceram em grande número.

O grand finale foi muito engraçado. O velho-mas-nem-por-isso-bobo Chuck resolveu autorizar a subida de seis garotas no palco. Não tardou para que uma avalanche reversa de gurias escalando a murada tomasse movimento, apinhando o palco do que Porto Alegre produz de melhor: belas rockeiras… HEHEHEHE. Quase mataram o Chuck, mas o filho dele foi fazer uma barreira humana antes que não sobrasse mais nada.

Muito bom. Sweet little rock and roll. Só faltou tocarem Maybellene!

Postagens Antigas »