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“A poesia é primeiramente o desafio da forma. Eu, no entanto, sempre fui apegado ao conteúdo, especialmente no que diz respeito às palavras. Quando escrevo, ainda não consigo me desvencilhar da idéai de expressar alguma verdade ou conclusão. Para mim, o sentido possui beleza própria e vivo a tentação de saboreá-lo por muitos ângulos.

Do meu Caderno de Anotações

Ode à Arca Verde

Entre os mais altos ventos deste pago,
Sossegadas verdejam muitas vidas.
Indistintas as da terra e as dos homens;
Pois o sol a todas aquece,
Num só dia.

Uma arca que é espaço,
E é essência;
Abarca a cada ser,
Tal como um rio.
Mil devires fazem dela confluência;
Quer seja habitando,
Ou na vivência.

De cada horizonte,
O azul nos mira;
Suavemente converte-se
Em verdes pradarias.

Percorrê-las é perder-se
Enquanto parte;
Para na roda encontrar-se
Enquanto todo.

Nestas terras irrefreáveis,
O silêncio
Aguarda paciente em cada ciclo;
Que a lua, arauto das estrelas,
Seja pioneira,
Na sucessão das luzes.

E se o espesso frio das alturas,
Recolhe os homens,
E acolhe a viração;
Contente se vê o fogo aprisionado,
Incandescendo um espontâneo coração.

A idéia do domínio humano sobre a natureza, que recebe o nome de antropocentrismo, caminha de mãos dadas com outras idéias, como o economicismo,  que diz que são os meios e as relações de produção e de troca de produtos que constituem a verdadeira ligação entre os seres humanos (sendo que o capitalismo – que diz que as melhores e mais justas relações econômicas são a venda de força de trabalho a um proprietário dos meios de produção – é a versão mais forte dessa idéia atualmente); o desenvolvimentismo, que diz que a finalidade da humanidade é desenvolver-se, aprimorar, progredir, aumentar a satisfação, a produção, o domínio e a acumulação; a do machismo-patriarcalismo, que diz ser o macho o chefe da família e o dirigente da sociedade.

André Geraldo Soares, A Natureza, A Cultura e Eu, pg. 32

Já não é a primeira vez que eu entro em férias e experiencio o mesmo fenômeno: uma volumosa torrente de idéias, aumentada capacidade de articulação de conceitos, maior facilidade na estruturação das idéias, maior facilidade na sistematização de idéias. De maneira geral, eu acabo sendo constantemente acometido pela prazerosa sensação de entendimento, de que minhas construções teóricas avançaram. Em outras palavras, as férias me presenteiam com epifanias, um bom número delas.

Já é sabido que eu tenho uma grande tendência a filosofar e que eu considero isso uma atividade extremamente importante e prazerosa para mim. No entanto, as aulas da faculdade constituem um mecanismo que demanda meu investimento intelectual. Elas me obrigam a pensar (em) determinadas coisas, o que inviabiliza que eu pense em outras coisas que me interessam mais e que fazem mais sentido para mim. Nesse sentido, as férias me libertam para pensar naquilo que eu quiser.

Ao longo do ano letivo eu sempre vou acumulando determinados conhecimentos, relações lógicas e pressupostos filosóficos que surgem no cotidiano acadêmico, profissional e pessoal. Esse material bruto eu acabo muitas vezes só tendo tempo de processar nas férias. A partir daí, meu treinamento no pensamento filosófico assegura que esses investimentos intelectuais dêem frutos. E dão! Me encontro atualmente colhendo saborosas epifanias.

Neste início de férias as epifanias foram tantas que uma delas me permitiu cunhar um termo que as classificasse à guisa de uma síndrome: poliepifaníase. Para completar, acrescentei o qualitativo aguda, para diferencia-la de uma hipotética poliepifaníase crônica. Afinal de contas, só me sinto assim em momentos específicos e de curta duração.

Só aguardo agora alguma epifania que me permita prolongar esse estado por mais tempo…

Eram sete e meia da manhã de um sábado. Eu atravessava sozinho a deserta João Pessoa em direção à UFRGS, sem me importar com o frio matinal, mas desejoso de ter ao menos tomado um café da manhã.

Na noite anterior eu estivera em uma festa junina no campus Agronomia, e antes disso estive no campus Saúde assistindo à minha última aula de Psicologia do Trabalho III. Desta vez, deixava o abrigo da Casa do Estudante em busca de um ônibus da mesma UFRGS, pois tencionava tomar parte em uma atividade de extensão que envolvia uma saída de campo.

Logo que avistei o facilmente reconhecível veículo oficial da universidade, tratei de ir conhecendo os que me acompanhariam. Um a um foram chegando, da biologia, veterinária, geografia, história, odontologia, ciências sociais e mesmo de fora da UFRGS. Muitos rostos e nomes novos, menos o do meu velho amigo Bruno, que estava como sempre atrasado.

O que reunia aquelas pessoas de tão diferentes origens ali num sábado pela manhã era uma atividade ligada à agroecologia – construção de um viveiro – a ser realizada num assentamento do MST na cidade de São Jerônimo. A proposta era uma iniciativa do Grupo de Apoio à Reforma Agrária (GARRA) e pode muito bem parecer vaga ou distante para a maioria das pessoas, mas para mim soou da seguinte forma: uma oportunidade gratuita de ir para o campo mexer com a terra, fazer trabalho braçal e fugir do concreto e do asfalto. Estou dentro!

A perspectiva de ter de emendar uma festa agitada a uma atividade árdua logo no dia seguinte pela manhã não me assustou. Depois da minha experiência com ENEPs, congressos e outras atividades similares, não me preocupo mais com a taxa de sono para esse tipo de coisa.

Chegando lá, tivemos a oportunidade de conversar com um dos líderes do assentamento e escutar um pouco das questões que estão implicadas na vida e trabalho de um assentado do MST. Conhecemos também a casa da família do agricultor Lagarto e seu respectivo lote, onde construiríamos o viveiro. Ironicamente, nosso vizinho era uma área de monocultura de araucárias da ARACRUZ.

O trabalho de construção do viveiro centralizou-se nas atividades de cavar profundos buracos, carregar toras e capinar o terreno. Além de ser uma ótima forma de gastar energias em alguma atividade diferente, foi uma oportunidade de todos sentirem-se ignorantes, fracos e preguiçosos. Mesmo o mais idoso dos agricultores (e que devia ter lá seus sessenta e tantos anos) fazia facilmente o trabalho que dez de nós universitários teríamos dificuldade para fazer, mesmo revezando. Um misto de falta de técnica e comparável fragilidade nos colocava em apuros durante o manuseio das ferramentas – teve até gente apanhando para martelar um prego! Um verdadeiro aprendizado e uma lição de respeito por um trabalho tão desvalorizado.

Ao meio dia a esposa do seu Lagarto fez a todos um excelente almoço vegetariano, com salada, massa, suco natural de maracujá e um aipim com maionese espetacular. À tarde o grupo de universitários acabou distanciando-se do trabalho e partiu em uma caminhada pela zona de floresta, juntamente com as mulheres e crianças do lote, enquanto os agricultores de verdade terminavam o viveiro. Eu já estava sentindo os efeitos da atividade prolongada, então aproveitei o passeio entre as árvores para viajar e saborear um pouco esse contato tão raro com um entorno vivo e essencial. Comer bergamota direto do pé, andar sobre majestosos troncos caídos, observar humildemente as folhas e as flores que crescem por crescer, alheias a toda vontade e toda opinião que tanto nos significam todos os dias.

Ao regressarmos, o viveiro já estava quase pronto, erigido pelos dedicados Lagarto e seus colegas agricultores do assentamento. Exausto e lutando para me manter acordado, ainda fizemos um momento de apresentação e declaração de qual era a implicação de cada um com o projeto ali. Eu estava junto com o grupo dos que foram por curiosidade, embora na verdade uma série de questões pessoais, sociais e existenciais haviam conspirado para que eu ali estivesse. Era evidente que ninguém ali era um curioso qualquer, mas pessoas engajadas e conscientes. E estar junto com elas ali, naquele espaço de concentração de corpos, mentes e energia, foi um privilégio e uma excelente forma de começar minhas férias.

Mutirão do GARRA

Há alguns anos atrás, quando me mudei para a casa do meu pai, peguei as numerosas caixas de plástico, papelão e outros recipientes de grande porte, todos recheados de pecinhas de LEGO cuidadosamente selecionadas por cor, e doei tudo para os filhos da faxineira.

Há anos já eu não mais esparramava tudo aquilo pelo chão e perdia tardes a fio a montar elaboradas estruturas, cenários, exércitos e aventuras materializadas em peças de plástico combináveis. Na minha infância, a maior parte da minha torrente imaginativa foi canalizada através destes brinquedos, palco de minhas primeiras viagens, diminutas representações de heroísmo, grandeza e glória. Adquiri ao longo dos anos muitas e muitas caixas de LEGO, de diferentes temáticas, grandes e pequenos, até acumular uma respeitável coleção.

Os anos foram passando, os interesses foram mudando, coisas como o videogame e o computador passaram a disputar minhas longas horas de lazer infantil. Foi assim que o LEGO deixou de se apresentar no meu cotidiano e, um dia, teve que ser definitivamente separado de mim.

Neste domingo um outro ramo do meu entretenimento passado também seguiu o mesmo rumo. É bem verdade que corresponde mais ao período da adolescência, mas não creio que seja tão válido fazer essa diferenciação. O fato é que durante os meus últimos anos no colégio eu mantive um hábito bastante sólido de jogar Magic: The Gathering, o esporte dos nerds. Assim como com o LEGO, muito prazer extraí do engenhoso jogo de cartas, muitos decks insólitos eu construí e muitas vitórias emocionantes acumulei. Eu até que era bom naquele joguinho.

Com o tempo, também acumulei muitas cartinhas – o suficiente para encher umas quantas caixas de sapato. Enquanto eu ainda estava no colégio, essas caixas de sapato eram constantemente manipuladas, ficavam acessíveis no meu quarto. Com o avançar dos semestres na UFRGS, as caixas foram migrando para as partes altas de meus armários e as cartinhas nunca mais viram a luz do dia.

Chegou a hora de minhas cartas de Magic verem a luz do dia mais uma vez. No entanto, será quando forem recolhidas para a reciclagem. Estou me desfazendo de todas elas; antigas e esquecidas edições cujas mecânicas não se usam mais, cujas aparências causam estranhamento ao jogador atual, vítimas de uma obsolescência programada de uma indústria do entretenimento. Elas ainda representam boas lembranças para mim, mas penso que preciso me desapegar de velhos objetos sem uso. Não deverá ser diferente com as cartas de Magic.

Ensacadas e removidas, agora não sobraram outros representantes de passatempos meus para futuros descartes. Meu tempo livre é gasto na rua, explorando e vivenciando, sentindo na pele o que antes eu imaginava. Se viajo sem me mover atualmente, é senão através de meus livros, estes uma paixão aparentemente mais perene, menos consumista.

O que fica desta reflexão é a impressão de que o desenvolvimento é sem dúvida implacável, a identificação com certas práticas não consegue ser imune à passagem do tempo, especialmente quando nos referimos aos anos da mocidade. O que me consterna ao menos em parte é o que me motivou a me desfazer das caixas de Magic: estava ficando sem espaço para guardar os papéis da faculdade e do estágio…

Faz frio no centro de Porto Alegre. É fim de outono, os delgados raios de sol se intimidam, esquivam-se de banhar os grosseiros paralelepípedos das ruas do paralelo 30º. Cada um dos transeuntes está só, mas não escapa de ser observado pelas solenes fachadas de outros séculos, que apenas fingem dormitar em silêncio em meio ao movimento diário.

A aspereza do ar frio empresta à cena uma tonalidade acinzentada, uma espécie de dignidade irônica compartilhada pelos mais impensáveis pedestres e seus cachecóis. Parecem ter consciência dessa involuntariamente adquirida dignidade, pois desfilam silenciosos, ainda que em multidão, por entre os postes de ferro trabalhado e as vitrines inquietas. A estas só é possível fantasiar de dignas, pois a transparência do vidro e a imobilidade escancarada dos personagens expostos esvazia o arranjo de toda a austeridade possível.

A descentralidade do centro é inquietante, pois um número incontável de pequenas lojinhas e estabelecimentos faz com que um montante ainda maior de gentes esteja a andar disperso, cada um com um destino à parte. Hoje, particularmente, parece que estão todos juntos a ir a parte alguma.

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